
Não como ato jurídico ou gesto de tolerância; mas expressão de amor que transcende a lógica humana: isso é o perdão apregoado por Cristo. Nele, o perdão se torna poesia feita alfarrábios no coração e alma humanos. No céu ecoa como maviosa melodia no reconciliar irmãos aqui na terra.
“Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu tenha que perdoá-lo? Até sete vezes?” (Mt. 18:21). A hipérbole dada como resposta se torna basilar: “Não te direi até sete vezes; mas, sim, até setenta vezes sete” (Mt. 18:22). Intrigante diálogo entre Jesus e Pedro. O humano X o espiritual.
A partir dali, o perdão não é matemática; é essência, é música. Não há limite, não há horizonte; só há amor superno. O convite é para que o ser humano viva o perdão; respirando com a alma e pulsando com um coração a amar sem qualquer reserva. A didática é esclarecedora…
O mestre das parábolas esclarece como um raio. Um servo que devia cento e setenta mil anos de trabalho (dez mil talentos) recebeu perdão total; todavia, o perdoado não quis perdoar uma dívida de cem dias de trabalho (100 denários). O contraste é intencional.
O cristão deve amar como Cristo amou; pois, o perdão divino é oceano, e o humano é grão de areia. O experimentar a graça infinita do perdão divino, obriga o compartilhar, ao menos, de algumas gotas dele.
O perdão é como beijo da eternidade no rosto da humanidade. É o encontro de amantes separados por soberba ou arrogância; mas, reunidos pela graça do perdão. É o feliz reencontro de irmãos separados por feridas na alma, onde o amor é bem mais forte que a dor.
O sol nasce todos os dias, mesmo depois de noites escuras. Assim é o coração que sabe perdoar: insiste no amor após cada ferida na alma. É o perdão que se faz poesia e transforma cicatrizes em suaves perfumes. É o peso da alma cansada que dança levemente ao som do amor.
Jesus ensina, na parábola, que o perdão é muito mais que ética. É escatologia que antecipa o Reino de Deus na terra. O perdão oferecido faz o céu se abrir um pouco mais para a eternidade. O perdão é mais que sacramento; é Deus reinando e espargindo amor na terra, onde havia rancor.
Deus é amor e perdão! Assim, perdoar é ser partícipe da natureza divina. Perdoar é fazer-se espelho de Deus que, em Cristo, ensinou a perdoar infinitamente. Não apenas sete; nem setenta; nem setenta vezes sete! Perdão e muito mais que mandamento: é romance com Deus.
Perdoar é como melodia a fluir sempre, mesmo quando o outro grita por vingança. É continuar a ser humano; porém, tocando o divino. Amém.





