O Homem

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Candido Gali sofreu um grave acidente de trânsito. Sua perna direita ficou bastante afetada, houve fraturas múltiplas e o esfacelamento da rótula. Recolhido ao hospital foi sedado e iniciou-se uma série de exames para melhor orientação da conduta médica. O diagnóstico foi bastante desfavorável na manutenção e correção daquelas fraturas. A parte da preservação dos grandes vasos, a parte inferior da perna teria que ser amputada. Ciente da situação Candido relutou à amputação. Pediu para pensar e pensou, e pensando concluiu: – Vou ouvir a família, resolveu e, embora bastante consternado, concordou com a cirurgia.

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Transferido para o Centro Cirúrgico passou a rezar intimamente pedindo para que todas as santidades acompanhassem os cirurgiões. Passadas nove horas de cirurgia foi removido para a Sala de Recuperação e lá permaneceu sedado. Acordou confuso e com sede. Perguntado se estava bem respondeu que estava ali pois precisava ser operado. Informado de que a cirurgia já havia sido feita ficou aliviado. Mapeou seu corpo como se seus sentidos escaneassem e logo localizou um grande curativo encapsulado por uma espécie de meia curta sem fundo que protegia o curativo.

Claro estava aliviado por acordar bem só com um pouco de sede, efeito colateral da anestesia geral. Teve seus lábios irrigados com algodão embebido em água hidratando e nada mais. Estava sendo hidratado com soro fisiológico via endovenosa também. Não havia monitoramento cardíaco, ele estava bem. Superando todas as trocas de curativos com a evolução da ferida cirúrgica teve alta e partiu. Passaram-se dez dias. Saíra do hospital com o compromisso de voltar em 10, 15 e 20 dias para acompanhamento da cicatrização.

Em casa começou o difícil périplo de se acostumar à nova realidade. Teve apoio da família que sempre o incentivara com palavras muito além de otimismo; era pura energia transferida. Estava feliz apesar da falta de parte da perna direita. Numa manhã recebeu um técnico em ortopedia para fazer as medidas referentes à sua perna parte perdida e ali colocar uma prótese. A moldagem demoraria alguns dias e depois disso repetidamente colocada e retirada até atingir o ajuste fino para funcionar direitinho.

Na manhã seguinte Candido acordou com uma estranha sensação: sentira que a parte amputada de sua perna estava crescendo. Questionou-se, olhou, mas concluiu que era isso mesmo. Ele próprio sabia que apenas um dos órgãos humanos se regenera: era o fígado. Porém embriagado com a ideia de que poderia estar sendo agraciado por um milagre, acreditou. Ligou para o técnico em ortopedia e contou a novidade: – Acho que não vai ser necessária a prótese pois a parte perdida da minha perna está se regenerando. – Não pode ser, observou o Técnico. Este ligou para o ortopedista e não era mesmo. O paciente em tela vivia a sensação de ter um membro fantasma muito bem caracterizado pela neurologia. Com o tempo essa sensação se desfez, e a prótese foi instalada. Candido voltou a andar.

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