
Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade do Vale do Taquari (Univates), no Rio Grande do Sul, identificou uma forte associação entre histórico de trauma na infância, sentimentos de desesperança e determinados padrões de impulsividade com o comportamento suicida.
O estudo analisou 170 participantes, sendo 119 pessoas com histórico de tentativa ou ideação suicida e 51 integrantes de um grupo de controle, e buscou compreender fatores psicológicos relacionados ao risco de suicídio em uma das regiões com maiores índices de mortalidade pela causa no Brasil.
Os resultados foram publicados na revista científica Cuadernos de Educación y Desarrollo e reforçam evidências já observadas em pesquisas internacionais sobre os fatores que podem aumentar a vulnerabilidade ao comportamento suicida.
A pesquisa ganha relevância diante do crescimento das discussões sobre saúde mental e prevenção ao suicídio, tema considerado um desafio de saúde pública em diversos países.
Desesperança aparece como um dos principais fatores
Entre os aspectos avaliados pelos pesquisadores, a desesperança foi um dos que apresentou associação mais significativa com o comportamento suicida.
Os participantes que relataram tentativa ou ideação suicida registraram níveis consideravelmente mais elevados de sentimentos negativos em relação ao futuro quando comparados ao grupo de controle.
Segundo os pesquisadores, a desesperança está relacionada à percepção de ausência de perspectivas, dificuldade de visualizar soluções para problemas e sensação de que mudanças positivas não acontecerão, fatores frequentemente observados em pessoas em sofrimento emocional intenso.
Impulsividade emocional também foi identificada
Outro resultado relevante envolve a impulsividade. Embora a impulsividade total não tenha apresentado diferenças significativas entre os grupos, algumas características específicas chamaram a atenção dos pesquisadores.
Pessoas com comportamento suicida apresentaram níveis mais elevados de impulsividade motora, relacionada à tendência de agir sem reflexão prévia, e impulsividade atencional, caracterizada pela dificuldade de controlar pensamentos e manter o foco em situações de estresse emocional.
Segundo o estudo, essas características podem contribuir para decisões tomadas em momentos de crise psicológica.
Experiências traumáticas na infância elevam vulnerabilidade
A pesquisa também encontrou maior incidência de experiências traumáticas durante a infância entre os participantes com histórico de tentativa ou ideação suicida.
Foram observadas diferenças significativas em situações relacionadas a abuso físico, abuso emocional, abuso sexual e negligência física.
De acordo com os autores, esses resultados estão alinhados a estudos internacionais que apontam que vivências adversas na infância podem aumentar significativamente o risco de problemas de saúde mental ao longo da vida.
Especialistas explicam que essas experiências podem afetar o desenvolvimento emocional, os mecanismos de enfrentamento do estresse e a capacidade de estabelecer vínculos saudáveis.
Contribuição para políticas públicas
Os pesquisadores destacam que a identificação desses fatores pode contribuir para o aperfeiçoamento de estratégias de prevenção, especialmente nos serviços de saúde mental e nas unidades de atendimento de urgência.
A expectativa é que o conhecimento produzido ajude profissionais da saúde a reconhecer sinais de risco de forma mais precoce, permitindo intervenções antes que situações de crise se agravem.
Os autores ressaltam ainda que o suicídio é um fenômeno complexo, influenciado por fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais, e que novas pesquisas são necessárias para aprofundar a compreensão sobre o tema.
Se você ou alguém que conhece precisa de apoio emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, ou pelo site cvv.org.br.
As informações desta reportagem têm como base estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade do Vale do Taquari (Univates), publicado na revista científica Cuadernos de Educación y Desarrollo (2024).





